Caixa de agosto

agosto 2026

Na caixa de agosto, os assinantes recebem o livro Ilusões bárbaras, do poeta baiano Moisés Alves. “Vamos, atenda o telefone,/ é urgente, quero cantar pra você” — aqui há sempre uma conversa acontecendo ou tentando acontecer. E essas conversas nos mostram relações intensas, truncadas pela incompreensão, pelos silêncios, pela violência. Por um lado, há o forte desejo de escapar dessa espiral. Por outro, vem o temor de que já seja tarde demais para que as coisas mudem de rumo. Talvez venham daí, desse atrito de que elas nunca fogem, a densidade e a força dessas palavras colhidas na vida. Também vai na caixinha a plaquete Caderno de cadernos, do gaúcho Pedro Cassel. Se poemas são capazes de nos transportar para outros universos, nos versos de Cassel a viagem é para um lugar em que tentar escrevê-los é, quase sempre, “começar um incêndio/ com o último fósforo”. Mas não é apenas do trabalho do poeta que temos notícia aqui, porque em toda essa conversa sobre cadernos baratos, caros, pequenos, alheios, o que está em jogo é uma paixão que passa pelas palavras para ir bem além: “decore um bom poema de amor/ e o amor, essa ave histérica,/ pra sempre vai dormir na sua boca”.

Livro de agosto

“Vamos, atenda o telefone,/ é urgente, quero cantar pra você” — na poesia de Moisés Alves, em Ilusões bárbaras, há sempre uma conversa acontecendo ou tentando acontecer. Há um “você” e um “eu”. Por vezes, temos a impressão de que quem fala “eu” é o próprio poema, que lança suas palavras em direção ao poeta. Noutras, é ele quem diz “eu” e nos coloca, leitores, no lugar desse “você”, que recebe as setas afiadas nas horas mais comuns: “A vida é uma guerra./ Espalhada por todo canto,/ inclusive nas casas”.

O que essas conversas nos mostram são relações intensas, truncadas pela incompreensão, pelos silêncios (nunca ouvimos, do outro lado, a voz do “você”), pela violência. Há o forte desejo de escapar dessa espiral, mas os caminhos não são simples: “sei bem do que viver é capaz”. Há fúria movendo-se por dentro, mas, de repente, tudo se enrosca ao temor de que já seja tarde demais para que as coisas mudem de rumo: “uma mágoa não se arrasta/ tão facilmente de um canto a outro/ sem ferir o chão da casa”.

O pai, a mãe, os deuses, os amantes são convidados a entrar nos poemas, mas é sempre ríspida a recepção: “O amor é um cão/ em cólera”. Talvez venham daí, desse atrito de que elas nunca fogem, a densidade e a força dessas palavras colhidas na vida, que têm “cor, ritmo, hálito, sabor”, como afirma Jorge Alencar na orelha do livro.

Plaquete de agosto

Autor

Pedro Cassel

Se poemas são capazes de transportar os leitores para os mais distantes universos, no Caderno de cadernos de Pedro Cassel a viagem é para um lugar em que eles ainda não nasceram, o livro ainda é um sonho e a escrita se embaralha com as tarefas do dia. Desde o primeiro verso, ele nos torna um “você” que está diante de um caderno em branco e cercado por um mundo que conversa com seu corpo, essa “máquina de perceber”.

Daí em diante, a cada página do caderno descobrimos algo sobre os bastidores dessa “oficina (nem sempre) irritada” em que o poeta, no fim das contas, gosta de viver. Às vezes, ele se sente um detetive. Noutras, ele apenas quer fazer a faxina em paz, ou ser um velho poeta japonês, ou saborear as palavras com calma. Mas, no fundo, ele também sabe que escrever um poema é, quase sempre, tentar “começar um incêndio/ com o último fósforo”.

E no entanto, não é apenas do trabalho do poeta que temos notícia aqui. Uma das artimanhas da poesia é esconder um assunto sob outro e nos despistar enquanto move as peças detrás de algum “tema sem importância”. E é bom lembrar disso ao ler Caderno de cadernos, porque em toda essa conversa sobre cadernos baratos, caros, pequenos, alheios, o que está em jogo é uma paixão que passa pelas palavras para ir bem além: “decore um bom poema de amor/ e o amor, essa ave histérica,/ pra sempre vai dormir na sua boca”.

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