Caixa de abril
Na caixa de abril, os assinantes recebem o livro Pequenas glórias, de Mary Oliver (1935-2019), que apresenta aos leitores brasileiros, na tradução primorosa de Patrícia Lino, uma das escritoras mais premiadas e de maior popularidade dos Estados Unidos. Caminhar, sentir, observar, meditar, anotar: esses verbos definem a lírica forte e clara de Oliver, talhada no convívio intenso com a natureza. O encantamento com todas as formas de vida encontradas no caminho cria uma atmosfera em que ela desaparece, quase em silêncio, para que o mundo fale e brilhe. Também vai na caixinha a plaquete Praia esgarçada alegria, do jovem poeta alagoano André Santa Rosa. Trata-se de um longo poema que parece ter sido escrito como se o autor retirasse, de uma caixa há muito guardada, fotografias de diferentes momentos, lugares e personagens, e elas começassem a contar uma outra história, atravessada por violência, sumiços, perdas e esperas sem fim. No jogo de sucessão e sobreposição de imagens, ecoa a pergunta que (co)move seus versos: “Em que momento a alegria silenciosamente se apaga?”. E assim nos lança à indagação diante do vazio deixado pela ausência de quem amamos e se insurge, a seu modo, contra as distâncias intoleráveis.
Livro de abril
Autor
Mary Oliver
Caminhar, sentir, observar, meditar, anotar: esses talvez sejam os verbos que definem a obra de Mary Oliver (1935-2019). No ambiente disputado da poesia estadunidense das últimas décadas, sua lírica forte e clara, talhada no convívio intenso com a natureza nos arredores de sua casa, conseguiu ocupar um lugar de raro destaque, fazendo dela uma das escritoras mais premiadas e de maior popularidade de seu país.
Em sua vasta obra, o encantamento com todas as formas de vida encontradas no caminho — flores, pássaros, frutos, gatos, cachorros, pedras, os traços de cada estação — cria uma atmosfera em que o sujeito desaparece, quase em silêncio, para que o mundo fale e brilhe. Ao mesmo tempo, é admirável a densidade dessa experiência individual e, muitas vezes, solitária (a poeta adorava fazer longas caminhadas sozinha). E isso a aproxima de outros grandes poetas que se deixaram fundir à paisagem, como uma “vírgula” entre outras na vastidão do existente, desde os mestres japoneses do haikai até seu compatriota Walt Whitman ou o brasileiro Leonardo Fróes.
Em tradução da poeta portuguesa Patrícia Lino, professora na Universidade da Califórnia (UCLA), Pequenas glórias reúne três livros de Mary Oliver: A folha e a nuvem (2000), O que sabemos (2002) e Vida longa (2004). Como afirma Natalie Diaz no prefácio, esses volumes formam uma “trindade” na obra madura da poeta. A mescla de versos, poemas em prosa e ensaios também faz jus à forma como a poesia e o pensamento de Oliver se desenvolveram durante toda a sua vida. Bem mais do que se importar com as fronteiras entre gêneros, sua atenção esteve sempre devotada a questionar o que estamos fazendo aqui, com os dois pés bem firmes sobre este planeta redondo.
Plaquete de abril
Autor
André Santa Rosa
Praia esgarçada alegria, do jovem poeta alagoano André Santa Rosa, é um longo poema sobre pessoas desaparecidas e lugares que não existem mais. Ou talvez seja melhor dizer: sobre a memória que não se completa, como o voo de uma praia que tem forma de garça ou a história de corpos lançados de aviões no meio do mar. Nessa atmosfera, os fantasmas vagam: Mário de Andrade numa praia em Maceió, uma vítima da ditadura militar no prédio do antigo DOI-Codi, a estátua de Graciliano Ramos entre turistas, “os primeiros Caetés/ […] espalhados entre/ a ilha de Itamaracá/ e o rio São Francisco”.
O poeta escreve como se retirasse, de uma caixa há muito guardada, fotografias de diferentes momentos, lugares e personagens, e, de repente, elas começassem a contar uma outra história, atravessada por violência, sumiços, perdas e esperas sem fim. No jogo de sucessão e sobreposição de imagens, ecoa uma pergunta que parece (co)mover seus versos: “Em que momento a alegria silenciosamente se apaga?”.
Nesse sentido, o poema é também uma forma de indagação diante do vazio, do silêncio, do buraco deixado pela ausência de quem amamos (impossível não se lembrar, ao passar por estas páginas, do filme Ainda estou aqui e sua história de “desaparecimento forçado”), e se insurge, a seu modo, contra as distâncias intoleráveis. De um lado, pela certeza de que “o tempo é a maior distância/ entre dois lugares”. De outro, pelo desejo de saber o que separa o primeiro sorriso do sobrinho e o último sorriso da avó.