Caixa de setembro
Na caixa de setembro, os assinantes recebem o livro A lágrima de um Caeté, de Nísia Floresta (1810-1885), uma das obras fundamentais da autora potiguar. Poeta, tradutora, ensaísta, educadora, viajante, mãe — Floresta é, sem dúvida, umas das figuras mais admiráveis da história brasileira. O atual interesse por sua obra e por sua vida de intelectual e militante tem ajudado a colocá-la no lugar de destaque que lhe é devido: uma mulher que, nas primeiras décadas do século 19, fazia circular no Brasil as ideias mais avançadas e combativas de seu tempo. Organizada e anotada pela pesquisadora Marina Santos, esta edição de A lágrima de um Caeté mostra que a denúncia da obra ao etnocídio indígena e sua crítica da escravização e da colonização portuguesa permanecem atualíssimas ainda hoje. Também vai na caixinha a espinha dorsal da terra, de Beatriz Malcher, em que a poeta niteroiense questiona nossa (in)capacidade de desvendar o “real”. Ao ecoar o “José” de Drummond, seus versos nos lançam um “e agora?” que, hoje, soa ainda mais perturbador. Na plaquete, a vida passa como um filme em que estamos presos ou uma viagem em que “tudo está a seis horas de distância/ de lugar nenhum”. Somos atores e diretores, espectadores e autores de histórias em que, a cada tomada, “toda a estupidez/ do presente entra em jogo”. Somos também o crítico que distribui estrelinhas, porque já não podemos separar o que acontece dentro e fora da tela, o que chamamos de realidade e o que nos atinge como se fosse ficção, mas não é.
Livro de setembro
Autor
Nísia Floresta
Poeta, tradutora, ensaísta, educadora, viajante, mãe — Nísia Floresta é, sem dúvida, umas das figuras mais admiráveis da história brasileira. O atual interesse por sua obra e, consequentemente, por sua vida de intelectual e militante tem ajudado a colocá-la no lugar de destaque que lhe é devido: uma mulher que, nas primeiras décadas do século XIX, elaborava, defendia e fazia circular no Brasil as ideias mais avançadas e combativas de seu tempo, que permanecem atualíssimas ainda hoje.
No conjunto de seus escritos, o poema A lágrima de um Caeté tem papel fundamental e é prova contundente da importância histórica e da atualidade vibrante de Floresta, mas também de que ela era, além de tudo, capaz de fazer em versos precisos a denúncia do etnocídio e a crítica da escravização e da colonização portuguesa, ao contar a história de um indígena, único sobrevivente de seu povo, que vaga por Pernambuco.
Esta edição, organizada e anotada pela pesquisadora Marina Santos, responsável também pelo estudo crítico que vem como posfácio ao poema, traz a transcrição rigorosa dos versos de Nísia Floresta a partir das fontes primárias. Como afirma o professor Alexandre Nodari na orelha do livro, trata-se de um poema que “deveria ocupar lugar de destaque nos estudos sobre o período. […] Contudo, como aconteceu com outras obras indianistas de autoria feminina, A lágrima de um Caeté foi ignorada pela historiografia dos séculos XX e XXI, incluindo aquelas que buscam complexificar o movimento”.
Plaquete de setembro
Autor
Beatriz Malcher
O que é real? — entre as muitas perguntas que a espinha dorsal da terra, da poeta niteroiense Beatriz Malcher, leva os leitores a enfrentar, a mais aguda tem a ver com nossa (in)capacidade de desvendar as muitas camadas de imagens que nos cercam, ou melhor, de que fazemos parte. Em sua tensão, ao ecoar o “José” de Drummond, os versos de Malcher nos lançam um “e agora?” que, hoje, soa ainda mais perturbador.
Seu poema nos arrasta para dentro de um filme; presos nele, é como se a vida fosse uma viagem em que “tudo está a seis horas de distância/ de lugar nenhum”. Somos atores e diretores, espectadores e autores de histórias em que, a cada tomada, “toda a estupidez/ do presente entra em jogo”. Somos também o crítico que distribui estrelinhas, porque já não somos capazes de separar o que acontece dentro e fora da tela, o que chamamos de realidade e o que nos atinge como se fosse ficção, mas não é. O amor pode não ser mais que uma farsa (“os atores são inexperientes/ o enredo é confuso o diretor problemático/ […] os ingressos andam muito caros”), e, no fim, a guerra está bem aqui — é real.
Com as imagens que se juntam ao poema, ao aproximar visualmente a destruição na terra e o “infinito” no céu, a poeta provoca outras interrogações: onde estamos nessa história? Qual é nosso lugar na vastidão? Como nosso mundo ínfimo participa dessa coisa imensa, sem margens e às vezes sem sentido, que é a vida? Poemas, bem sabemos, não dão respostas, mas podem abrir nossos olhos: “são as estrelas/ a espinha dorsal da terra”.