Caixa de julho
Na caixa de julho, os assinantes recebem o Tomar parte no enxame, de Mônica de Aquino. Cada bicho que surge nele, de dinossauros a abelhas, mesmo sob o escrutínio de cientistas, sempre nos olha de volta. O novo livro da poeta mineira apresenta uma fauna variadíssima, por meio da qual uma longa história das espécies ilumina as encruzilhadas da nossa própria espécie. Se “escrever é escavar”, aqui é possível (re)aprender que a poesia é uma forma de olhar longamente para as coisas, para cada detalhe da vida, detendo-se até extrair o que há de mais recôndito e, por vezes, incômodo sob a casca de tudo. Também vai na caixinha a plaquete Faltam emojis, em que Laura Erber investiga o que se tornou nossa comunicação (e nossa vida!) quando, no lugar de palavras e frases, passamos a enviar pequenos desenhos sintéticos e coloridos para dizer quase tudo — ou quase nada. Na verdade, é isso o que a poeta nos ensina: faltam e sempre faltarão emojis, porque a vida não cabe nem caberá neles. Depois desses poemas, vai ser mais difícil deixar um emoji se intrometer, impensada e impunemente, entre suas palavras. E, mais ainda, entre você e outra pessoa de carne e osso.
Livro de julho
Autor
Mônica de Aquino
O novo livro de poemas de Mônica de Aquino começa com um duplo deslocamento. Primeiro, ela toma a perspectiva de um animal para olhar os humanos. Segundo, no lugar do boi meditativo que vê os homens no famoso poema de seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, agora é um polvo, ainda mais crítico, que observa — e disseca — quem pensa observá-lo unilateralmente. Daí em diante, cada bicho que surge nas páginas de Tomar parte no enxame, de formigas a dinossauros, de peixes a galinhas, mesmo sob o escrutínio de cientistas, dá sempre a impressão de que nos olha de volta.
Dividido em quatro seções, o livro apresenta uma fauna variadíssima, por meio da qual uma longa história das espécies ilumina as encruzilhadas da nossa própria espécie. Para a poeta, “escrever é escavar” e, em seus versos, é possível (re)aprender que a poesia é uma forma de olhar longamente para as coisas, para cada detalhe da vida, detendo-se até extrair o que há de mais recôndito e, por vezes, incômodo sob a casca de tudo.
E esse olhar é, essencialmente, sua forma de participação. Como diz Florencia Garramuño, a investigação cuidadosa que cada palavra implica é um modo de “inserir-se na colmeia que é o mundo, intervir nela, participando desse enredo de seres humanos e não humanos”. Em Tomar parte no enxame, “cada abelha é uma célula// a colônia é o verdadeiro animal”. Ler, aqui, é tomar parte: saber-se mel. E veneno.
Plaquete de julho
Autor
Laura Erber
De uns anos para cá, passamos os dias e as noites enviando mensagens: entre abreviações e descuidos gramaticais, cada vez mais nossa linguagem é tomada por pequenos desenhos coloridos que tentam sintetizar o que precisamos dizer a todos com quem interagimos, sejam amigos, amores ou mesmo desconhecidos. Entre emojis e emoticons (além da enxurrada de outras imagens, como fotos, gifs e memes que trocamos pelos mesmos canais), nossas palavras se espremem para lidar com tanta urgência.
E é claro que isso chamaria a atenção dos poetas, não apenas porque eles amam suas línguas e cada uma das palavras, mas porque sabem — ou tentam desesperadamente saber — o que ganhamos e o que perdemos em cada esquina da linguagem. É o que podemos constatar em Faltam emojis, série de poemas em que Laura Erber investiga o que se tornou nossa comunicação (e nossa vida!) quando, no lugar das velhas frases, passamos a enviar os desenhos inventados por um jovem designer japonês há menos de três décadas: “críticos argumentam/ que o seu uso/ degradou a qualidade do discurso da vida dos amores/ que as novas gerações/ estão ficando emocionalmente/ estúpidas”.
Nesse tempo, muita coisa mudou e, junto com as expressões faciais resumidas em rostos que são simples bolinhas amarelas, temos centenas de símbolos para dizer quase tudo — ou quase nada. Porque, na verdade, o que a poeta nos ensina, ao declarar que faltam emojis, é que sempre faltarão emojis: a vida não cabe nem caberá neles. Depois de ler os poemas, vai ser mais difícil deixar um emoji se intrometer, impensada e impunemente, entre suas palavras. E, mais ainda, entre você e outra pessoa de carne e osso.