Caixa de fevereiro
Na caixa de fevereiro, os assinantes recebem o novo livro de Natasha Felix. Por que uma jovem poeta, forjada na linguagem das criações contemporâneas, traria Lázaro de volta? Se o personagem bíblico foi ressuscitado depois de quatro dias sepultado e saiu andando em meio à multidão encantada com os poderes divinos, em Três vezes Lázaro o regresso também pode ser visto como uma demonstração de poder — mas da poesia, capaz de explodir os limites do nosso mundo, da nossa mente, e reaver a vida onde pousou a morte. Quem renasce, aqui, é também quem lê — eis o milagre, eis a pilantragem. Também vai na caixinha a plaquete Ínsulas, de Dalila Teles Veras, que sintetiza as linhas de força de uma voz admirável que, em mais de quatro décadas de intensa atividade, se apurou e espraiou em diversas formas literárias e lutas culturais. Os poemas evocam a insularidade da poeta (nascida numa ilha portuguesa), mas também são o testemunho de uma mulher que rompe seu isolamento ao se identificar e multiplicar junto a outras mulheres e, também, ao lidar com a forma como a passagem do tempo inscreve, no corpo e na mente, outro modo de viver, criar e desejar.
Livro de fevereiro
Autor
Natasha Felix
Por que uma jovem poeta, forjada na linguagem das criações contemporâneas, traria Lázaro de volta? O Lázaro bíblico, conta-se, foi ressuscitado por seu amigo Jesus depois de quatro dias sepultado e saiu andando em meio à multidão encantada com os poderes divinos. No novo livro de Natasha Felix, o regresso de Lázaro também pode ser visto como uma demonstração de poder — mas da poesia, capaz de explodir os limites do nosso mundo e da nossa mente, reavendo a vida onde pousou a morte.
Sob a aparência fragmentária e utilizando recursos da dramaturgia, Três vezes Lázaro une suas criaturas (deuses, fiscais fungos) para compor as cenas em que esse personagem múltiplo desfila suas/nossas chagas. A variação formal dos poemas, aliás, já é uma maneira de reproduzir as aparições e desaparições de Lázaro, o seu livre trânsito entre mundos, o seu escorregar entre real e irreal: “É tudo tão real quanto você imagina”.
É na imagem de alguém que não se dobra à fronteira entre existir e não existir que Natasha Felix simboliza também outras fronteiras (muros, cercas, portas, passaportes, leis) que definem o nosso mundo, confinando corpos, ideias, sonhos, e assim as desafia.
Os leitores que já conhecem a exuberância poética de Natasha Felix — seus versos que transbordam dos livros para o palco e a pista, para a voz e o quadril, e vice-versa — podem imaginar que Lázaro também não ficará quieto nessas páginas. Lázaro vai andar por aí, indiscernível e inconfundível, um pouco como cada um de nós. Quem renasce, aqui, é também quem lê. Eis o milagre, eis a pilantragem.
Plaquete de fevereiro
Autor
Dalila Teles Veras
Os breves poemas que formam Ínsulas, de Dalila Teles Veras, sintetizam as linhas de força de uma voz admirável que, em mais de quatro décadas de intensa atividade poética, política e cultural (que sempre estão, para ela, numa mesma dimensão), se apurou e espraiou em versos, poemas em prosa, crônicas, diários e ensaios.
A palavra “ínsula” remete à origem latina de “ilha”, mas também carrega outro sentido muito pertinente aqui: “ínsula” (ou córtex insular) é a região do cérebro em que as sensações corporais se conectam com as emoções e com os sentimentos, ou seja, em que a mente traduz as mensagens do corpo. Nos poemas da plaquete, esses dois sentidos se projetam porque, junto à insularidade evocada pela poeta (nascida numa ilha portuguesa), há o testemunho de uma mulher que rompe o isolamento ao se identificar e multiplicar junto a outras mulheres e, também, ao lidar com a forma como a passagem do tempo inscreve, no corpo e na mente, outra vida, outro modo de viver.
Na primeira parte, os poemas tratam da percepção particular do mundo que decorre não apenas de ter nascido e vivido a infância numa ilha, mas do fato de partir em direção ao exílio — a ilha, assim, é lugar no espaço, lá fora, mas também algo que se carrega por dentro e, claro, na escrita (“todo um arquipélago a compor a poeta e a poesia”). Na segunda, “Infusões”, o olhar se abre para retratar a força das mulheres ao redor: anfíbias, engenheiras, ambientalistas, magas, artilheiras, ambidestras, ilusionistas — “que ninguém se iluda com a fragilidade aparente”. Na terceira, “Faces, fases”, a poeta volta-se para o “novo/velho corpo”, em que os músculos e a memória se transformam, mas, “ostra agarrada ao tempo”, flagra o que ainda a faz criar e desejar.