Caixa de outubro

outubro 2026

Na caixa de outubro do Círculo de Poemas, os assinantes recebem o novo livro de poemas de Lilian Sais. Depois da Tetralogia da Perda dedicada ao luto pelo pai, a poeta apresenta Controlar a boca, escrito a partir do mergulho nos cadernos de receita deixados por sua mãe. Nessa escavação poética, entre ingredientes e modos de preparo, a filha persegue o fio da morte da mãe e desvenda a poesia desses cadernos cheios de sabores e dissabores — e não poderia ter forma melhor de lidar com os choques profundos e silenciosos de um mundo em que o luto se mistura ao cheiro de bolo e as palavras nem sempre foram servidas à mesa. Também vai na caixinha a plaquete Ridículo, de Matheus Gato, permeada de perguntas sem resposta. Quais delas ainda carregaremos quando sentirmos estar no limite extremo da vida — o que ainda insistiremos em compreender? Em direção a quem lançaremos nossas últimas e desesperadas palavras? Ainda teremos motivos para chorar, praguejar, protestar? Ou para rir? Essas são algumas das perguntas que Ridículo desperta, para além das tantas indagações implícitas e explícitas em seus versos, que nos levam ao ponto em que talvez não faça sentido — seja ridículo — procurar a porta dos eleitos, quebrar os dedos ao partir o pão, querer ver a fonte.

Livro de outubro

“O amor/ é a um só tempo/ doce e amargo” — essa imagem, tirada dos fragmentos de Safo, vibra em todas as páginas de Controlar a boca, novo livro de Lilian Sais. Depois de dedicar uma Tetralogia da Perda ao luto pelo pai, a poeta entra nos cadernos de receita deixados por sua mãe para escavar — em meio à “letra de criança”, a ingredientes e modos de preparo — os sabores e dissabores que vão bem além de sua história familiar.

Em versos que mesclam afeto, memória e acidez crítica, Sais aproxima o mundo da mãe, que foi tirada da escola porque já sabia escrever o suficiente para ter o próprio caderno de receitas, e o da filha poeta, com “bacharelado mestrado e doutorado/ em grego antigo”. No trânsito entre experiências que parecem tão distantes, mas que compõem uma mesma trama da vida, ela nos conduz por caminhos que passam entre orações a Santo Expedito, dicas de saúde e conselhos para as moças, marcas que o fogão deixou no corpo, fotos de família etc., mas que levam, sobretudo, a lindos poemas.

Controlar a boca é um livro sobre encontros (o que há de mais propício do que a comida para lembrar encontros e tudo de que eles são feitos?), mas também sobre despedidas e o que fica depois delas. Como numa escavação poética, Lilian Sais persegue o fio da morte da mãe e encontra um livro de poemas dentro de um caderno de receitas — e não poderia ter forma melhor de lidar com os choques profundos e silenciosos de um mundo em que o luto se mistura ao cheiro de bolo e as palavras nem sempre foram servidas à mesa: “dia sim dia não/ passa pano/ no piso frio/ e coloca panos quentes/ nas discussões/ da família// gosta de tudo/ brilhando e se orgulha/ de ser/ uma mulher limpa”.

 

Projeto financiado com recursos do ProAC — Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativa, e da Política Nacional  Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Governo Federal.

Plaquete de outubro

Autor

Matheus Gato

Quais perguntas ainda carregaremos quando sentirmos estar no limite extremo da vida — o que ainda insistiremos em compreender? Em direção a quem lançaremos nossas últimas e desesperadas palavras? Ainda teremos motivos para chorar, praguejar, protestar? Ou para rir? Essas são algumas das perguntas despertadas por Ridículo, de Matheus Gato, para além das tantas indagações implícitas e explícitas em seus versos.

“Ridículo”, em sua origem latina, é aquilo que provoca o riso, mas os poetas sempre dão um jeito de arrastar de volta para as palavras os sentidos que tentam escapar. Também é ridículo o insignificante (a nossa insignificância?) e o sem-sentido, o erguer de uma voz inquieta em direção a um Senhor que pode ter todas as respostas e nenhuma: “das feridas de teus pés caiu uma gota negra que inundou o mundo”. É ridículo constatar que “lamentar o absurdo/ jamais é uma resposta”. Tudo e nada: ridículo.

As diversas partes do poema estão escritas à sombra de duas frases simples (“O livro está na mesa./ ao longe, se escuta o ruído de um relógio quebrado”), mas muito significativas para a amarração tensa do conjunto. Ou melhor: o poema se inscreve nos espaços dessa frase, entre suas imagens claras, porque o poeta fragmenta-as em títulos, que funcionam como entradas para cada parte de Ridículo, até que os olhos se voltem apenas para aquelas frases, para aquele livro, e não faça mais sentido — seja ridículo — procurar a porta dos eleitos, quebrar os dedos ao partir o pão, querer ver a fonte

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