Vagoneta
(março 2026)
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Sobre a plaquete
É possível seguir “alheio a tudo o que fizeram com você”? Convertendo em pergunta um dos primeiros versos de Vagoneta, ficamos próximos do núcleo das tensões entre as quais a poesia de Luiz Mauricio de Azevedo se coloca e nos coloca. A história pesa sobre a voz que fala nesses poemas, mas ela nunca é o “passado”; é como um tempo que não pode ser consertado, como impossibilidade e ódio vivos, que ela pesa.
Curiosamente, costurando as imagens de dor (a impotência diante “do que poderia ter sido”, a mãe falecida, os sonhos esmagados, “não [ter] ninguém em mim”), o humor é uma das marcas de Vagoneta, mas para cada sorriso há um travo profundo. Porque esse humor talvez seja da mesma natureza daquele “só rindo mesmo” que soltamos diante do absurdo naturalizado nas notícias, da injustiça como regra no cotidiano, das adversidades que se sucedem. E não há conformismo ou cinismo aí, porque, no fundo, é sua forma de destruir qualquer falsa pacificação com os limites que o “passado” implica.
Os poemas estão cheios de um desejo que não se dobra, até explodir na imagem de um oceano dentro do peito em que o poeta quer se (nos) lançar com Vagoneta. Sua voz, que ora nos chama de lugares muito concretos, ora nos arrasta para dentro do sonho, parece falar com alguém (um você, um tu) muito específico, com afeto e proximidade, e sempre joga sua rede larga para longe, com agressividade ou sarcasmo, mas sobretudo com coragem — a coragem de quem abre caminhos.
Esta plaquete é parte da caixa de março 2026
- título Vagoneta
- autor Luiz Mauricio Azevedo
- ISBN 9786561391146
- Páginas 40
- Formato 13,5 x 20
Trecho
em que parte desse grão estão os mortos
se viraram
meu pó
meu pai
meu quinhão
em tuas costas todos se escondem
lamberiam teus ossos
pudessem vender tuas mãos