Sobre a plaquete
Quais perguntas ainda carregaremos quando sentirmos estar no limite extremo da vida — o que ainda insistiremos em compreender? Em direção a quem lançaremos nossas últimas e desesperadas palavras? Ainda teremos motivos para chorar, praguejar, protestar? Ou para rir? Essas são algumas das perguntas despertadas por Ridículo, de Matheus Gato, para além das tantas indagações implícitas e explícitas em seus versos.
“Ridículo”, em sua origem latina, é aquilo que provoca o riso, mas os poetas sempre dão um jeito de arrastar de volta para as palavras os sentidos que tentam escapar. Também é ridículo o insignificante (a nossa insignificância?) e o sem-sentido, o erguer de uma voz inquieta em direção a um Senhor que pode ter todas as respostas e nenhuma: “das feridas de teus pés caiu uma gota negra que inundou o mundo”. É ridículo constatar que “lamentar o absurdo/ jamais é uma resposta”. Tudo e nada: ridículo.
As diversas partes do poema estão escritas à sombra de duas frases simples (“O livro está na mesa./ ao longe, se escuta o ruído de um relógio quebrado”), mas muito significativas para a amarração tensa do conjunto. Ou melhor: o poema se inscreve nos espaços dessa frase, entre suas imagens claras, porque o poeta fragmenta-as em títulos, que funcionam como entradas para cada parte de Ridículo, até que os olhos se voltem apenas para aquelas frases, para aquele livro, e não faça mais sentido — seja ridículo — procurar a porta dos eleitos, quebrar os dedos ao partir o pão, querer ver a fonte
Esta plaquete é parte da caixa de outubro 2026
- título Ridículo
- autor Matheus Gato
- ISBN 9786561391405
- Páginas 20
- Formato 13,5 x 20
Trecho
o ruído
talvez um desvio entre o que se disse
e o que se queria dizer
rolava no espaço curto de um suspiro
seu tremor assombrado pela saudade
o que restava do seu momento
era o que podia ser encontrado com facilidade
entre uma palavra e outra
um pouco de continuidade e confusão
Senhor, tua coroa perfurou meus desejos