a espinha dorsal da terra
(setembro 2026)
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Sobre a plaquete
O que é real? — entre as muitas perguntas que a espinha dorsal da terra, da poeta niteroiense Beatriz Malcher, leva os leitores a enfrentar, a mais aguda tem a ver com nossa (in)capacidade de desvendar as muitas camadas de imagens que nos cercam, ou melhor, de que fazemos parte. Em sua tensão, ao ecoar o “José” de Drummond, os versos de Malcher nos lançam um “e agora?” que, hoje, soa ainda mais perturbador.
Seu poema nos arrasta para dentro de um filme; presos nele, é como se a vida fosse uma viagem em que “tudo está a seis horas de distância/ de lugar nenhum”. Somos atores e diretores, espectadores e autores de histórias em que, a cada tomada, “toda a estupidez/ do presente entra em jogo”. Somos também o crítico que distribui estrelinhas, porque já não somos capazes de separar o que acontece dentro e fora da tela, o que chamamos de realidade e o que nos atinge como se fosse ficção, mas não é. O amor pode não ser mais que uma farsa (“os atores são inexperientes/ o enredo é confuso o diretor problemático/ […] os ingressos andam muito caros”), e, no fim, a guerra está bem aqui — é real.
Com as imagens que se juntam ao poema, ao aproximar visualmente a destruição na terra e o “infinito” no céu, a poeta provoca outras interrogações: onde estamos nessa história? Qual é nosso lugar na vastidão? Como nosso mundo ínfimo participa dessa coisa imensa, sem margens e às vezes sem sentido, que é a vida? Poemas, bem sabemos, não dão respostas, mas podem abrir nossos olhos: “são as estrelas/ a espinha dorsal da terra”.
Esta plaquete é parte da caixa de setembro 2026
- título a espinha dorsal da terra
- autor Beatriz Malcher
- ISBN 9786561391382
- Páginas 40
- Formato 13,5 x 20
Trecho
Do estúpido mundo futuro
e do feroz mundo antigo,
permaneceu explícita
apenas uma beleza que não tem vergonha:
arcos do triunfo, arranha-céus, pirâmides,
máquinas de guerra, escombros
do que não foi inventado.
E, contrariando os cálculos e previsões,
há ainda você, só,
nesse frágil corpo humano,
abatido por miopia e neuroses,
acreditando se ver em miniatura
projetada na tela.
[…]